CALL OF DUTY — BLACK OPS: COLD WAR [GAMES] (2020)

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O historiador estadunidense e judeu da Universidade de Maryland, Jeffrey Herf (1947-), analisando os fatores culturais que viabilizaram o nacional-socialismo alemão no livro “O modernismo reacionário” (1984), inicia este interessante ensaio acadêmico com os seguintes dizeres: “Não há algo como a modernidade em geral, há somente sociedades nacionais, cada uma das quais se moderniza em sua própria feição (…)” (HERF: 1993, p.13).

Não obstante se tratar de um livro acadêmico sobre a terrível simbiose entre modernidade tecnológica-urbana e ressentimento aristocrático-rural que culminou no que o ministro de propaganda nazista Goebbels denominou “romantismo de aço” na Alemanha de Hitler, a afirmação acima tem uma abrangência para caracterizar o que seja o conceito efetivo (no sentido hegeliano) de nacionalismo a partir das revoluções europeias do século XVIII: a aparência de algo liberal forjado pela Revolução Francesa, mas com distintos significados nos seus espaços de conformação, seja na Europa, na América (século XIX), ou adotado maneira cooperativa, embora constrangida, por países africanos e asiáticos com a Conferência de Bandung (1955), isto é, o modelo dos países colonizadores: com constituições, exércitos, excessivas legislações e controles burocráticos sobre suas populações territoriais.

Um fenômeno cultural nunca é algo universal (experimentado por todas as nações de maneira semelhante) e a pesquisa histórica serve-se das especificidades encontradas no trato documental e iconográfico dessas vivências políticas para demonstrar a eficiência do modelo iluminista ou a reação a ele, é a isso que se chamou historicismo cultural e está no campo da historiografia (metodologia da História) e da própria História em si enquanto processo no tempo do desenvolvimento intelectual dos homens.

Já a pretensão de transformar uma experiência particular e nacional em uma mercadoria universal influenciadora sobre gerações e mentes de milhares de pessoas, se chama hegemonia cultural. Isso está no campo da ciência política e da política internacional, se expressa por meio do Imperialismo.

Nesse ponto, não há meio cultural que melhor faça auxilie nisso do que a indústria cinematográfica e a indústria dos games, duas tecnologias audiovisuais e de entretenimento instantâneo que ajudaram a disseminar uma abordagem sobre fatos históricos e uma mentalidade socioeconômica importantíssimas para os EUA na construção da sua hegemonia em nível mundial (que se quer universal, assim como o modelo econômico capitalista que a sociedade de lá experimenta…): a) Uma “fake news” histórica de que os aliados do Ocidente na Segunda Guerra Mundial (1939–1945) venceram os nazistas e fascistas praticamente sozinhos. Se não se afirma isso explicitamente, ao menos, procura-se ao máximo omitir a respeito da participação do Exército Vermelho nos principais fronts decisivos para a derrota alemã em 1945; b) A construção de um imaginário de ferrenha propaganda anti-comunista na segunda metade do século XX, juntamente com outros países anglófonos (Inglaterra), pois estava-se na Guerra Fria (1945–1991), como se percebe, por exemplo, ao se assistir aos roteiros de filmes da franquia 007, em RAMBO 3 (1988) ou mesmo no final do filme ítalo-estadunidense A VIDA É BELA (1999).

No âmbito da indústria dos games, quando jogos admitem um enredo com interface histórica, fica muito evidente a dominância de estereótipos americanos nessas produções. Nesse sentido, a franquia Call of Duty, mais precisamente a série black ops da qual faz parte o recente título Cold War insiste, ainda no ano de 2020, em recriar o conflito entre EUA e URSS que nunca entre si vieram as vias de fato, porém balançaram todos os territórios vulneráveis (quer dizer colonizados) em prol de suas ideologias particulares.

Esses tradicionais jogos de tiro em primeira pessoa que foram disseminados no mundo nerd pelo game Counter Strike (1999) — que acabou se tornando uma espécie de gênero da ação terrorista — , ganharam tanto espaço entre os gamers (muitos deles tradicionalmente sectários e reacionários) que se criou uma narrativa entre o “nós” (mundo ocidental, capitalista, consumista) e os perturbadores dessa ordem (os comunistas, os “terroristas do mundo árabe”, até quando os chineses ficarão de fora dessa representação?).

Por exemplo, o primeiro título da série Black Ops (2010) apresenta o contexto da crise dos mísseis em Cuba (1962), a presidência de John F. Keneddy (1961–1963) e toda a série de enfrentamentos militares indiretos com a URSS. É um ode às ações militares anticomunistas na América Latina, mais precisamente às malogradas tentativas de assassinato de FIDEL CASTRO (1926–2016), inclusive com missões no game exatamente com esse propósito. Os demais títulos na sequência da série Black Ops apresenta uma tendência mais futurista do que uma inspiração histórica, porém as campanhas de guerra, como no Afeganistão (país que estava na órbita de influência soviética até 1989), Iraque e países da América Central, fazem a ponte sobre a ideia de que se o embate ideológico se travava de maneira “fria” entre as duas potências (EUAxURSS) exportava-se a guerra de maneira “quente”, extremamente violenta, para longe de seus territórios patrióticos (nacionais).

Lançada pela Activision, em 13 de novembro de 2020, Black Ops: Cold War se passa nos anos 1980 da Guerra Fria. A campanha segue Russell Adler, um operador da CIA, em perseguição com um suposto espião soviético, Perseus, cujo objetivo declarado é subverter os Estados Unidos e inclinar o equilíbrio de poder hegemônico em direção à URSS. De certa maneira esse game é uma continuação mais aperfeiçoada ao original da série: retratar o ranço dos EUA com a URSS, independente do partido que está no governo, pois se Black Ops I trata da era Keneddy (democrata), esse novo Black Ops: Cold War tem como fundo histórico a era Reagan (1981–1989), o governo americano mais extremamente hostil e responsável por via da competição militar pela queda da URSS em 1991.

Enfim, apesar de muitas críticas políticas, pois jornalistas e parte da crítica especializada tem aludido que o jogo difunde teorias da alt-right e do fascismo segundo o qual o “marxismo cultural” estaria infiltrado em todas as universidades acadêmicas e meios de comunicação, Black Ops: Cold War desperta o interesse a respeito das relações entre História e Ideologia, a tensão entre o real factual e a representação oportunista dos fatos, entre domínio historiográfico e domínio político, algo que sempre rende uma dialética possível, apesar de cientificamente discutível, ainda mais quando visualizado ou trazidos à tona pelas artes, pelos meios de difusão cultural, como os games.

Trailer de Call Of Duty — Black Ops: Cold War (2020)

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: Jeffrey HERF. O modernismo reacionário. Tecnologia, cultura e política na República de Weimar e no 3.º Reich. São Paulo: Contexto, 1993

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Críticas histórico-culturais de um estudante de Ciências Humanas

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